01 Prólogo

IN GAME: 28 de Maio de 2004

IRL: Sessão de 27 de Maio de 2023


Chegando separados, porém quase juntos, na boate Fogo Fátuo, em São Francisco, Niterói, Rodrigo, Judas e Petter encontraram o lugar ainda aquecendo. Já havia música embalando aquele começo de noite, em maio de 2004. O espaço era incrível. Por algum motivo nenhum dos três tinha ido àquela boate ainda; mesmo ela estando lá desde sempre. Eles ainda não se conheciam. Vamos por partes, então.


i - Rodrigo

Acordar com o raiar da escuridão era a prática de Rodrigo já desde 1983. Mesmo com seus dezenove anos de abraço, manter uma rotina lhe ajudava muito a entender sua condição, e manter suas metas de leituras, desde o abraço aos vinte e sete anos, muito mais ambiciosas. Chegava a ser engraçado pensar que, antes do ocorrido, pensava que ler algo com muito mais de mil páginas tomava tempo demais. Hoje, por outro lado, entendia que tinha todo o tempo do mundo. Voraz como leitor, Rodrigo saia pouco - mais para caçar do que qualquer outra coisa - mas isso não quer dizer que detestasse a rua, principalmente a vida noturna de sua cidade. Seu endereço, na Loja Maçônica Acácia, lhe dava o conforto e reclusão necessários ao seu estilo de vida. Após se vestir, chamou um táxi e rumou na direção da Fogo Fátuo, boate onde um amigo - Leonardo - havia marcado de encontrá-lo. Sabia que a boate pertencia ao xerife da região, Anton, e que era um lugar incrível. Seu amigo queria conhecer o espaço, curtir a noite, e vê-lo um pouco fora do cheiro de poeira que o cercava na biblioteca subterrânea da Acácia.


ii - Petter

Ainda com o gosto amargo da noite anterior, Petter acordou enquanto o sol queimava a pele de sua perna. A cama daquela quitinete era mal posicionada, mas a falta de espaço não permitia colocá-la em outro lugar. Seu sono era pesado, principalmente de ressaca, mas mesmo sendo final de maio, fazia muito calor em São Gonçalo às 16h. Havia recebido um flyer falando sobre a boate Fogo Fátuo, uma das mais tradicionais da cidade vizinha, e decidiu ir pra lá nesse sábado, dia 27 de maio. Levantou, fez um café forte, mas só despertou quando estava debaixo do chuveiro gelado do cubículo que o locatário chamava de banheiro. Foda não conseguir alugar alguma coisa sozinho ainda, pensou do alto dos seus dezessete anos. Saiu perfumando-se, vestiu a roupa e acendeu um cigarro. Desceu pelas escadas pra evitar stress no elevador. Doze andares, aproximadamente meio cigarro, depois estava na rua. O sol ainda brilhava, machucando seus olhos ainda um pouco inchados, mas se sentia bem pra curtir. Pegou um ônibus rumo a Niterói e foi.


iii - Judas:

Seus olhos se abriram de súbito, como um pico de cortisol - caso ainda lhe corresse algum sangue nas veias - e estava desperto. Judas levantou-se e caminhou lentamente pela mansão onde morava com sua mãe. Selecionou de sua coleção de vinis um LP e colocou para tocar a todo volume. O espaço foi preenchido pelo som d’A Marcha Valquírias, de Wagner. A sonoridade apocalíptica lhe trazia uma certa paz, e inspirava suas composições. Um ato de revolta, como o da Valquíria Brunilda contra seu pai Wotan, tinha muito a ver com a sensação que Judas queria em sua música. Após algumas anotações em seu caderno, vestiu-se e saiu. Seu Opala estava impecavelmente limpo, como sempre, e seguia dando impressão de ter saído recentemente da concessionária. Na noite - único momento que Judas podia estar fora - o carro se movia como uma bala negra de uma tonelada e meia pelas ruas de Niterói. Chegou à Fogo Fátuo, lugar que vinha querendo conhecer já havia alguns anos, cedo e entrou, estacionando no imenso estacionamento que, até o momento, estava vazio.


Geral:

Passaram pela segurança da entrada tranquilamente, não tinha nada a esconder. O segurança da porta não deixa passar nenhuma informação de ninguém  - com um olhar simples, de cima, o homem de dois metros e seis de altura, conseguia deduzir não só se você era do mundo das trevas ou não, como que tipo de criatura você era. Passaram por ele um jovem humano e um jovem vampiro. Rodrigo aparentava vinte e sete anos, e tinha quarenta e seis - se contarmos os anos desde o abraço como cronológicos. Logo depois um outro jovem vampiro. Nada fora do normal para aquela noite de Sábado. A vista da boate por fora era de tirar o fôlego. Deveria ter no mínimo seis andares, e parecia - porque era - uma catedral setecentista tingida de preto e vermelho através de luzes e tinta. Um por um os três passaram pela jovem da portaria. Era uma garota linda, deveria ter seus vinte e poucos anos, e tinha uma energia tão positiva que mal combinava com seu cabelo profundamente preto, como suas roupas, e raspado dos lados. Se ela não falasse nada, poderia até soar intimidadora. Os três pagaram suas entradas e seguiram para o local, atrás de uma barreira de concreto construída para evitar olhares curiosos vindos de quem estivesse do lado de fora. Por dentro o espaço era ainda mais incrível que por fora. Uma sala principal usada como pista de dança que poderia abrigar confortavelmente umas centenas de pessoas, sem que ninguém se esbarrasse. Era realmente impressionante. Olhando para cima via-se mezaninos de cinco andares, e um lustre de proporções titânicas, agora apagado, que deveria servir para iluminar os últimos andares dos referidos mezaninos. 

Rodrigo se aproximou do DJ para tentar puxar assunto com o mesmo, ver se conseguia extrair alguma informação sobre a boate em si. A curiosidade é um de seus traços mais marcantes, obviamente. Pensava em perguntar por seu amigo, visto que era alguém conhecido na vida noturna da cidade - ao contrário de si mesmo - mas mal teve chance. A música foi cortada violentamente pelo que parecia ser uma briga de casal. Um homem e uma mulher, ambos de preto, trocavam socos e gritavam um com o outro até que o segurança, aquela verdadeira montanha, foi chamado para apartar. Como procedimento padrão, o segurança os agarrou pelo braço bruscamente e retirou-os do chão. Antes que pudesse se mover na direção da porta Rodrigo, Petter e Judas puderam ver a mulher jogar algo de um frasco em cima do segurança que, por sua vez, instantaneamente começou a gritar e pegar fogo. Os dois sumiram no meio da multidão que corria para fora a boate dando a volta no biombo de concreto que separava o salão da porta. O corpo do segurança ia dolorosamente se tornando cinzas. A morte final não é algo bonito de ser ver em nenhuma ocasião. As chamas que entregavam a alma do pobre vampiro ao inferno pareciam gritar por sua boca, agora selada para sempre numa pilha de cinzas inerte. Todo o processo pareceu durar muito tempo e, sem que praticamente ninguém percebesse, a porta privativa da escada principal havia sido aberta e desciam os últimos degraus da escada os pés de alguém extremamente polido e educado. Olhava com olhos mortos, e dava ordens secas porém em baixo volume ao seu secto de criados que prontamente o obedeciam. Em poucos minutos, talvez segundos, a pilha de cinzas foi solenemente recolhida. Súbito Rodrigo sentiu que aquilo não havia terminado. Pôde entender que aquele era Anton, sem dúvidas, mas acima disse pode entender que aquela história não tinha terminado. 

Enquanto os três, agora conversando, tentavam entender o ocorrido, a jovem da portaria foi arremessada violentamente por cima do biombo de concreto. Pela forma que a pobre caiu, não houve chance de sobrevivência. Anton olhou para seu corpo e não teve tempo de ter ação, quando uma espécie de explosão destruiu o biombo e uma ambulância entrou, de ré, no salão. Quatro pessoas mascaradas e com uma força e velocidade impressionante até mesmo para vampiros, o imobilizaram e jogaram na traseira da ambulância que arrancou saindo para a direita. Petter pode perceber que, da escada de onde Anton havia descido, uma pessoa de pele dourada e usando vestes que o fizeram pensar em monges tibetanos, subia correndo como se fugisse. Rodrigo vira apenas o pé e um trecho da túnica da mesma pessoa. Poucos segundos depois a ambulância foi seguida por dois carros que antes estavam no estacionamento. Um Jaguar C-type preto e um furgão da mesma cor. Rodrigo, Judas e Petter, atônitos, tentavam entender o que houve. Após alguns minutos de conversa, com os dois não mortais tentando se livrar do jovem mortal, o jaguar retornou. Os três, que eram dos poucos que ainda estavam na boate, correram para o estacionamento onde entreouviram a conversa que informava que o motorista do Jaguar não tinha obtido sucesso em pegar a ambulância. Ao perceber que os três haviam ouvido mais do que deveriam, o motorista do jaguar os chamou e entregou um para-quedas na mão de cada um. Subiram, numa mistura de convencimento e ameaça, sete lances de escadas. No quinto puderam ver, ao final de um corredor, o mesmo homem vestido de monge. Rodrigo pode notar detalhadamente que ele tinha uma aparência tranquila, e um olho aberto no meio de sua testa.

Chegando ao sétimo andar - a cobertura - encontraram apenas um longo corredor e uma parede negra. O motorista do jaguar andou até um painel onde digitou um longo código numérico e a parede se abriu. Havia um helicóptero em um heliporto coberto. Impressionados com a riqueza do lugar, e ainda um tanto quanto intimidados pelo motorista do jaguar - além de muito alto e solene, era obviamente um vampiro velho e poderoso - entraram no helicóptero que em poucos minutos os levou ao Copacabana Palace. Por sua vez, o hotel têm seu heliporto coberto, em sua cúpula de topo. Logo abaixo do heliporto, em um teatro privativo, esperava de pé no palo Dom Scheid, arcebispo e príncipe da cidade. Sua expressão não era nada boa.


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